quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Uma prévia de meu livro Inocência Perdida.

                                                  Inocência Perdida.

Link para saber mais: http://www.livrariadragoeditorial.com/…/a-saga-de-um-pinto…/
A saga de um pintor
Uma prévia de meu livro Inocência Perdida...
“O tempo cura qualquer ferida”. Pelo menos era o que dizia o ditado.
Natanael acabara de sair da padaria com um saco de papel cheio de pães. Ergueu a cabeça e deteve o passo no meio fio, olhando para os lados. Deu dois passos, atravessou a pista movimentada, cercado por transeuntes que pareciam acompanhá-lo ou até mesmo, protegê-lo, mas era uma simples ilusão. Chegando do outro lado, viu-se, novamente, sozinho e estremeceu. Mesmo tendo fugido de casa para escapar da solidão, ainda na rua sentia-se como em casa, solitário.
O pensamento o deixou triste, sentia falta de Dulcinéia, a única que realmente se importara com ele. Lembrara-se de que nos primeiros dias chegara a rondar o prédio atrás dela, mas viu a polícia, depois, homens de seu pai, detetives e outros. Não queria voltar. Não iria para a Suíça, preferia ficar nas ruas. Nada fizera para merecer este castigo. Era inocente.
Seis meses se passaram bem rápido. Ele conseguira sobreviver aos primeiros dias e principalmente, às noites. As ruas em São Paulo eram muito perigosas e ele aos poucos, tomou conhecimento disto. Chegara a ter que acordar nas noites e fugir, ou da polícia, ou de grupos de outras crianças, como gangues. Havia usuários de drogas, muitos. E os mais perigosos, os traficantes. Ele sabia que muitas crianças desapareciam na noite, sem deixar vestígios. Muitas iam dormir, e acordavam mortas pelo frio ou pela fome.
Olhou o saco de pão e deu mais rapidez às pernas. Tinha deixado os outros embaixo da ponte, à espera do que ele poderia arranjar desta vez. Natanael havia organizado um grupo de crianças, algumas bem novas e outras, até mesmo mais velhas do que ele, entre meninos e meninas; tinha sido com um justo propósito. Em um grupo maior era bem mais seguro viver em São Paulo. Podiam se proteger mutuamente, um olhando as costas do outro. Distribuíra deveres e impunha regras de conduta para manter o grupo unido. Precisavam agora, apenas de um lugar para se esconder.
Durante o dia algumas das crianças perambulavam pelas ruas, os menores faziam pequenos serviços e malabarismo diante dos carros. Todo dinheiro arrecadado por elas acabava nas mãos de Natanael ou Maria, que os guardava para comida e caso necessitassem, remédios. À noite os mais velhos saíam, inclusive Natanael, em busca de ganho fácil. Era nestas horas que o perigo os rondava.
Natanael sempre saía com Rodolfo, mas naquela manhã, resolvera sair sozinho e como às vezes fazia, foi até sua antiga morada. O porteiro chegou mesmo a olhá-lo com desdém e desconfiança, mas nem se dignou a chutá-lo dali. Não queria, provavelmente, sujar suas roupas. Estava saindo, afastando-se da entrada do prédio, quando percebeu o táxi se deter à entrada onde antes estivera e dele, com calma, sair sua mãe, acompanhada de dois meninos e logo atrás, com o semblante impenetrável, seu pai. Ficou estático por alguns momentos, não entendera o que estava acontecendo. Fixou seus olhos nos dois meninos e viu a semelhança deles com Carlos Fabio de Albuquerque. Um estremecimento percorreu lhe o corpo e seu coração bateu apressado, compreendeu o que via. Aqueles dois meninos, gêmeos, eram filhos de seu pai, portanto, seus irmãos. Mas eles pareciam um tanto deslocados, mesmo assustados.
Deu dois passos na direção a eles, mas depois, tomando ciência do que estava prestes a fazer, escondeu-se entre algumas árvores e apenas se afastou, quando eles já não estavam mais lá. Voltou então e dirigiu-se a seu bando. Sabia que mudanças haviam acontecido. Mas estava curioso e ao mesmo tempo, preocupado. Tinha certo ciúme, mas sabia também que a vida com seus pais era por demais difícil.